O Brasil em Destaque no Mercado Global
O Brasil se posiciona como um dos poucos países com a capacidade de garantir segurança no fornecimento global de commodities agropecuárias, energéticas, minerais e climáticas. Em um panorama mundial onde a geopolítica emerge como um fator crítico para o abastecimento, a presença dessas commodities se torna um símbolo de poder.
Commodities, por definição, são produtos homogêneos e não diferenciados, e seus preços são majoritariamente determinados pela interação da oferta e da demanda nos mercados globais. Elas podem ser classificadas em três categorias principais: energéticas, minerais e do agronegócio.
Durante o auge da globalização, o fácil acesso a essas mercadorias criou uma falsa noção de que eram inesgotáveis e sem relevância estratégica. A produção e a logística eficientes, aliadas a preços baixos e uma oferta estável, levaram a commodities a serem vistas como itens ultrapassados, almejando uma transição para produtos de maior valor agregado nas exportações.
Leia também: Exportações Brasileiras para o Oriente Médio Sofrem Queda de 26% Desde o Início da Guerra
Leia também: Brasil Estabelece Rota Alternativa pela Turquia para Proteger Exportações do Agronegócio
Um Debate Necessário sobre Commodities
No Brasil, um país rico em recursos naturais, o debate sobre commodities gerou críticas em relação à dependência desse setor, que responde por mais de 70% das nossas exportações. Essa visão reducionista e equivocada ignora que para a produção de commodities é necessária uma combinação de tecnologia, indústria e serviços. O verdadeiro problema não reside na posse de commodities, mas na falta de estratégia para transformá-las em poder econômico.
A realidade geopolítica passou por uma transformação significativa, colocando as commodities como foco central dos conflitos globais. Por exemplo, a luta pelo controle do petróleo e do gás natural tem sido crucial em regiões como a Venezuela e o Irã. Da mesma forma, a rivalidade entre EUA e China se intensificou pelo controle de minerais críticos, como lítio e cobalto, disputados com a mesma intensidade que o petróleo foi no século XX.
Desafios e Oportunidades para o Brasil
Leia também: Exportações de Ovos do Brasil Crescem 16,3% em Fevereiro e Mercado Reage Positivamente
Leia também: Bahia Avança em Negociações com a Ásia e Pode Expandir Exportações
A guerra na Ucrânia ilustrou como grãos e fertilizantes podem ser utilizados como armas geopolíticas. O fechamento do Estreito de Ormuz, um estreito geográfico de apenas 39 km, demonstrou como um gargalo pode comprometer as cadeias globais de alimentação e energia.
Dentro desse complexo ambiente, o Brasil ocupa uma posição privilegiada. O país se destaca nas exportações de commodities agrícolas, liderando o ranking global. Além disso, diversificou sua matriz energética: enquanto o restante do mundo opera com 85% de energia fóssil e apenas 15% renovável, o Brasil alcançou um equilíbrio, com respetivas divisões entre fontes de energia fóssil e renovável, resultado de um planejamento que se estende desde a década de 1970.
Entretanto, na área de mineração, o Brasil ainda enfrenta desafios. Apesar de ser bem-sucedido na exploração de petróleo, minério de ferro e cobre, há uma preocupante lentidão na exploração de minerais críticos, como lítio e terras raras, cujas reservas permanecem em grande parte inexploradas devido à falta de uma política mineral nacional clara.
Adicionalmente, o Brasil é o líder mundial em importação de fertilizantes, consumindo 85% do que a agricultura nacional necessita de fontes externas. Embora sejamos a maior potência agrícola tropical do mundo, a falta de controle sobre a fertilidade do solo nacional representa um enorme desafio.
Visão Futura: Aproveitando as Oportunidades
O cenário global atual traz riscos e vulnerabilidades, mas também oferece oportunidades significativas para o Brasil, desde que o país atue de maneira coordenada, estratégica e urgente. O aproveitamento adequado dessas oportunidades poderá não apenas fortalecer a posição global do Brasil, mas também garantir a segurança alimentar e energética nacional no futuro.
Marcos Jank é professor sênior e coordenador do Insper Agro Global, conselheiro de diversas empresas e analista respeitado nas áreas de agronegócio e bioenergia.


