Uma trajetória marcada pela música e cultura baiana
“Como se aproximar do sol para sentir seu calor, observar suas labaredas, sem se queimar?” Esta reflexão do escritor João Paulo Cuenca, no posfácio de O mundo todo é Bahia: memórias do Brasil, de Tracy Mann, tradutora e escritora nascida em Nova York, guiou a conversa na mesa Enquanto corria a barca, realizada na tarde de 30 de maio durante a Feira do Livro 2026, em São Paulo. O encontro destacou a trajetória singular de Mann, que desde 1973 mantém um relacionamento profundo com o Brasil e, em especial, com a Bahia.
Ao longo do livro, Mann revisita episódios que a levaram a Salvador nos anos 70, depois de desembarcar em São Paulo como estudante de intercâmbio aos 17 anos. Na capital paulista, a jovem americana se deparou com uma elite conservadora, o que confrontava os valores liberais que tinha recebido em casa, em Nova Jersey. O choque cultural foi intenso, sobretudo ao se deparar com a presença das empregadas domésticas e a realidade das populações indígenas e negras, temas pouco discutidos naquele meio.
Laços afetivos e encontros com grandes nomes da cultura brasileira
A mudança decisiva ocorreu com a chegada à Bahia, onde Mann se aproximou de um jovem músico líder da banda Bendegó, que também tocava com Caetano Veloso. Essa convivência a aproximou de importantes figuras da cena musical, como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Dominguinhos, representantes de um momento histórico para a cultura brasileira. Em uma das viagens com a banda a Ouro Preto, ela teve contato com o Clube da Esquina, movimento mineiro que marcou a música nacional.
João Paulo Cuenca brincou ao comparar Mann a um “Forrest Gump” da cultura, pelas inúmeras experiências vividas e narradas com riqueza de detalhes no livro, traduzido por Santiago Nazarian e publicado pela Laranja Original. Entre as histórias mais tocantes, está o período em que Mann morou na casa de Gilberto Gil no bairro Boca do Rio, em Salvador. Ela se emocionou ao lembrar das crianças Pedro e Preta, filhos de Gil, que infelizmente faleceram, momentos que marcaram sua relação de carinho com a família.
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O simbolismo da Bahia e o legado das memórias pessoais
Durante o evento, Mann leu um trecho onde conta como o título do livro foi inspirado em uma frase de Gilberto Gil. Em uma manhã no Rio de Janeiro, ao observá-lo meditar, ela revelou suas angústias sobre a permanência no Brasil durante a ditadura e o receio de não conseguir renovar seu visto. Foi então que Gil lhe disse: “Não se preocupe tanto em deixar a Bahia para trás. O mundo todo é Bahia, Tracy”.
A escritora, no entanto, não entendeu a frase imediatamente, mas com o tempo percebeu que a Bahia para ela não representa apenas um local físico, mas uma porta aberta para o mundo. Essa convivência afetiva e cultural moldou sua identidade e suas escolhas. As memórias da juventude, os primeiros amores e viagens, permanecem vivas na escrita, que ela define como uma carta de amor e reconhecimento às pessoas que contribuíram com sua trajetória.
Conexões com o Brasil e a música além das fronteiras
Após um período em que acreditou ter deixado o Brasil para trás, o destino a trouxe de volta ao país por meio de sua relação com um engenheiro de som ligado ao cantor Sérgio Mendes. Mann trabalhou assessorando turnês de músicos brasileiros e colaborou com letras em inglês para artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Djavan, com algumas músicas premiadas com Grammy. Nos últimos anos, tornou-se uma espécie de embaixadora da música brasileira no festival de inovação SXSW, nos Estados Unidos.
O reencontro com Gilberto Gil ocorreu em Nova York no início dos anos 90, em um show que contou com a presença do crítico musical Jon Pareles, do New York Times. Mann recorda o encontro com emoção, lembrando a simplicidade e a cordialidade do artista.
Feira do Livro 2026: espaço para histórias que conectam culturas
A participação de Tracy Mann na Feira do Livro 2026 reforça a importância de eventos culturais que promovem o diálogo entre autores, leitores e diferentes tradições. A quinta edição do festival, gratuita e realizada a céu aberto, ocorre entre 30 de maio e 7 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo. Com mais de cem autores nacionais e internacionais, a programação reúne debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários que valorizam a diversidade e a circulação cultural.
Assim, a trajetória de Mann se insere em um panorama maior de circulação de saberes e afetos que atravessam fronteiras, mostrando como a Bahia e o Brasil continuam a inspirar e a construir pontes no mundo da cultura.

