Cenário Atual da Cacauicultura no Brasil
No dia 16 de abril de 2026, produtores de cacau da Bahia e do Pará, os principais polos da cacauicultura brasileira, se deparam com um aumento da pressão econômica. Essa pressão é resultado da concorrência internacional e da importação de amêndoas de cacau para suprir a indústria nacional. Apesar de apresentar uma produção significativa, que alcançou 137 mil toneladas na Bahia em 2024, segundo o IBGE, o setor enfrenta uma fase de reestruturação. Nesse contexto, a produção de cacau fino se destaca como uma estratégia viável para agregar valor e recolocar o Brasil no cenário global.
Desafios e Concorrência Internacional
Atualmente, o Brasil ocupa a sexta posição entre os maiores produtores de cacau do mundo. No entanto, a competição com países africanos, como Costa do Marfim e Gana, que concentraram aproximadamente 70% da produção global, se intensifica. Estes países têm aumentado sua presença no mercado brasileiro com amêndoas que oferecem uma relação custo-benefício mais favorável.
Essa dinâmica internacional tem causado um embaraço na comercialização da produção nacional, pressionando os preços e diminuindo a competitividade dos produtores locais. Nos últimos anos, a valorização do cacau no Brasil, com arrobas ultrapassando R$ 1 mil, foi impulsionada por crises climáticas em outras regiões. Contudo, a recuperação global da produção alterou este cenário.
Inovação e Adaptação no Setor
Thiago Fernandes, diretor do Consórcio Cabruca de exportação de chocolates finos do Sul da Bahia, ressalta que a situação já era previsível. Ele enfatiza que o atual cenário demanda adaptações estratégicas e inovações na produção, especialmente diante da nova realidade de mercado.
Impactos na Indústria e Regulação
Outro aspecto importante é a diminuição do percentual de cacau nos produtos industrializados no Brasil, resultando em uma queda na demanda por amêndoas de qualidade superior. Este panorama pode ser revertido com o progresso do Projeto de Lei 1769/2019, que já foi aprovado no Congresso Nacional e estabelece parâmetros mínimos para o chocolate, como:
- 35% de sólidos totais de cacau no chocolate;
- 25% de cacau no chocolate ao leite;
- 14% de sólidos totais de leite.
Essas regulamentações prometem aumentar a demanda por cacau de alta qualidade e estimular práticas mais qualificadas na produção.
Capacitação de Produtores
Em resposta a essa situação desafiadora, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) lançou o circuito de oficinas chamado “Do fruto ao aroma: produção de cacau fino”, em colaboração com a Ecoagro – Cocoa Hub. Esta iniciativa tem como meta:
- Capacitar produtores em técnicas de manejo e pós-colheita;
- Aprimorar a qualidade das amêndoas;
- Expandir o acesso a mercados premium.
O primeiro encontro ocorreu em Presidente Tancredo Neves, no Baixo Sul da Bahia, e novos eventos estão programados para os municípios da região até junho.
As oficinas são práticas e abrangem todas as etapas da produção, incluindo colheita, fermentação, secagem e análise sensorial. Luanildo Silva, analista do Sebrae, destaca que o projeto não se limita a capacitação técnica, mas também representa uma estratégia para reposicionar a cacauicultura da região, potencializando a renda e a competitividade.
Fortalecimento Regional e Abordagem Territorial
O circuito de oficinas atinge produtores de diversos municípios do Baixo Sul e do Vale do Jiquiriçá, como Presidente Tancredo Neves, Valença, Gandu, Wenceslau Guimarães, Igrapiúna, Camamu e Mutuípe. A proposta territorial visa disseminar boas práticas e construir uma base produtiva mais resistente, promovendo a integração entre conhecimento técnico e as realidades locais.
Essa estratégia amplia o alcance das políticas de desenvolvimento rural e fortalece a organização produtiva regional, um aspecto crucial para enfrentar as flutuações do mercado global.
Sistema Cabruca e Sustentabilidade
Um dos maiores patrimônios da cacauicultura baiana é o sistema Cabruca, um modelo agroflorestal singular. Nesse sistema, o cacau é cultivado sob a sombra de árvores nativas da Mata Atlântica, promovendo a preservação do bioma e criando condições ideais de microclima para o cultivo.
De acordo com a CEPLAC, esse sistema abrange cerca de 60% da área cultivada com cacau na Bahia, proporcionando benefícios significativos, como:
- Conservação ambiental da fauna e flora;
- Manutenção da biodiversidade;
- Estabilidade climática para o cultivo;
- Potencial de produção sustentável com alto valor agregado.


