Desvalorização dramática das ações da Casas Bahia
As ações do Grupo Casas Bahia (BHIA3) sofreram uma das quedas mais expressivas da Bolsa brasileira na última década. Em 2020, os papéis chegaram a valer mais de R$ 400, atingindo um pico ajustado de aproximadamente R$ 489,08. Desde então, o valor despencou para centavos, refletindo a crise financeira que afeta a rede varejista. Na sexta-feira (14), último pregão antes do pedido formal de recuperação judicial, as ações fecharam em R$ 0,66. Já na segunda-feira (17), por volta das 13h41, a cotação caiu para R$ 0,49, representando uma desvalorização acumulada de 99,86% em relação ao valor máximo.
Fatores que impulsionaram a crise financeira
O declínio gradual das ações acompanha a deterioração dos resultados financeiros da empresa e um ambiente econômico desafiador para o varejo. O pedido de recuperação judicial aponta uma combinação de fatores: investimentos elevados em tecnologia e logística para disputar o comércio eletrônico, o impacto negativo da pandemia sobre as lojas físicas, o aumento significativo dos juros desde 2021 e a elevação dos custos das dívidas. Além disso, a retração no consumo das famílias e o crescimento da inadimplência pressionaram ainda mais as finanças da companhia.
O modelo de negócios da Casas Bahia, que depende fortemente de financiamentos para manter estoques e oferecer crédito aos clientes, foi especialmente afetado pelos juros altos. Isso fez com que uma parcela crescente do caixa operacional fosse destinada ao pagamento de despesas financeiras, reduzindo a capacidade de investimento e geração de lucro.
Medidas tímidas de reestruturação e seus limites
Em 2023, a Casas Bahia iniciou um plano de transformação que envolveu o fechamento de 55 lojas, corte de aproximadamente 8.600 empregos e a redução de investimentos e estoques. No ano seguinte, a empresa renegociou parte de suas dívidas por meio de recuperação extrajudicial, considerada bem-sucedida internamente. No entanto, o cenário econômico adverso persistiu, mantendo a pressão financeira elevada.
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O pedido de recuperação judicial detalha ainda uma reestruturação mais profunda, com a demissão de cerca de 3 mil funcionários e o fechamento de quase 300 lojas, reduzindo o quadro para mais de 20 mil empregados atualmente. Essas medidas, porém, não foram suficientes para reverter o quadro de dificuldades financeiras enfrentado pela companhia.
Transformação em “penny stock” e histórico na Bolsa
Com as ações cotadas abaixo de R$ 1, a Casas Bahia passou a integrar o grupo conhecido no mercado como “penny stocks” — papéis com forte volatilidade e associados a empresas em situação financeira delicada. Desde abril de 2024, quando iniciou a recuperação extrajudicial, os papéis acumularam queda de 87,9%, caindo de R$ 7,30 para valores atuais.
A empresa abriu capital na Bolsa em dezembro de 2013, inicialmente como Via Varejo, movimentando cerca de R$ 2,8 bilhões. Posteriormente, mudou de nome para Via S.A. e, depois, para Grupo Casas Bahia, adotando o ticker BHIA3. Após 13 anos de negociações na Bolsa, a companhia solicitou recuperação judicial para renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas e tentar reorganizar suas finanças.
Pedido de recuperação judicial e impacto no mercado
Na noite de domingo (16), o Grupo Casas Bahia protocolou o pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo, incluindo a empresa e outras nove do grupo. O objetivo é renegociar dívidas bilionárias e garantir a continuidade das operações. O processo ainda precisa ser ratificado pelos acionistas em Assembleia Geral Extraordinária.
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O cenário de juros altos, restrição de crédito e redução no consumo prejudicou a geração de caixa da empresa. Nos últimos 18 meses, a companhia buscou captar recursos no Brasil, Estados Unidos e Europa, inclusive por meio de oferta de ações. Contudo, a desistência do investidor âncora e a inviabilização de empréstimos-ponte impediram o avanço dessas estratégias.
Resultados financeiros recentes e mudanças na diretoria
Em comunicado recente, a empresa registrou prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, dos quais R$ 9,1 bilhões correspondem a ajustes contábeis sem impacto imediato no caixa. Apesar do prejuízo, alguns indicadores apresentaram melhora: a receita líquida cresceu 1,6%, chegando a R$ 6,98 bilhões, e as vendas online avançaram 15,3%, totalizando R$ 2,8 bilhões.
Também foram anunciadas mudanças na diretoria: a saída do vice-presidente Jurídico e Tributário, Fábio Spina, que será substituído por Sírley Lima, além da saída de Jackson Schneider e Rogério Calderón do Conselho de Administração. Calderón permanecerá à frente de comitês internos da companhia.

