O legado do Sistema Ferry-Boat na BTS
Desde a implantação do Sistema Ferry-Boat na baía de todos os santos (BTS) nos anos 1970, a dinâmica do transporte regional mudou drasticamente. O modelo rodoviarista, com uma única linha ligando Salvador a Bom Despacho, na Ilha de Itaparica, levou ao fim da frota de vapores que atendia diversas localidades ao redor da baía, uma região que abrange 300 km e inclui 17 municípios. Essa mudança não foi neutra: causou estagnação econômica no Recôncavo baiano, prejudicando municípios que antes tinham maior atividade graças ao transporte aquaviário.
O projeto da ponte e seus desafios
Agora, um novo capítulo se desenha com a proposta da construção de uma ponte que atravessaria a BTS, um dos maiores corpos d’água do Brasil e do mundo. O projeto, liderado por um consórcio chinês, enfrenta críticas e ajustes – como a ampliação do vão central de 482 para 682 metros para permitir a passagem simultânea de navios cargueiros grandes. Isso é crucial para não comprometer a operação do complexo portuário da baía, que movimenta mais de 40 milhões de toneladas por ano e reúne doze instalações, incluindo portos públicos e terminais privados.
Os passageiros e a prioridade aos veículos
Usuários do ferry frequentemente reclamam das longas filas, especialmente em feriados prolongados. Porém, a questão central é que o sistema privilegia os carros, não as pessoas. A ponte, na prática, vai beneficiar o tráfego de veículos, mas piorar a experiência dos passageiros, que continuam sem um sistema de transporte aquaviário eficiente e atualizado. O ferry, presente há 55 anos, não passou por uma modernização que considerasse a demanda crescente e as inovações tecnológicas necessárias.
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Fonte: parabelem.com.br
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Fonte: cidaderecife.com.br
Frota envelhecida e investimentos insuficientes
A cada governo, a frota ganhou uma ou duas embarcações, muitas vezes usadas, despadronizando os barcos e aumentando custos operacionais. Recentemente, o Estado adquiriu mais um ferry por R$89,4 milhões, apontado como o último investimento em embarcações. A renovação completa da frota, com cerca de dez embarcações, custaria R$890,4 milhões, valor muito inferior aos R$11 bilhões estimados para a construção da ponte. O desgaste do sistema é resultado do abandono, não da exaustão do ferry-boat.
Terminais precários e uso misto
Os terminais de embarque em São Joaquim (Salvador) e Bom Despacho seguem sem modernização, apesar do potencial para gerar receitas extras. Em Bom Despacho, cresceu um terminal de ônibus intermunicipais, refletindo a demanda reprimida por transporte na BTS. Os passageiros convivem com a precariedade do sistema, enfrentando uma situação que tende a piorar com a desativação do ferry.
Impactos urbanos e logísticos da ponte
O local destinado à ponte, no Centro Histórico de Salvador, ocupará área cedida à Codeba para o Terminal de São Joaquim. Isso restringe o uso do espaço e prejudica a expansão do porto, fundamental para a movimentação de contêineres. Além disso, o projeto da ponte não considerou adequadamente o impacto sobre a cidade, especialmente a Via Expressa Baía de Todos os Santos, que foi criada para o transporte de cargas e poderá ser sobrecarregada com veículos pesados atravessando o tecido urbano, afetando o Centro Histórico.
Falta de planejamento e conflitos entre projetos
O deslocamento ampliado da Estação Rodoviária de Bom Despacho para Salvador não foi analisado em detalhes, nem seu efeito sobre a nova rodoviária intermunicipal em Águas Claras. Essas decisões mostram uma ausência clara de planejamento integrado, com projetos que se chocam e prejudicam a logística e a economia local.
O futuro incerto do ferry-boat e da economia local
O fim do Sistema Ferry-Boat será um golpe duro para a região, não apenas pelo impacto no transporte, mas pelos desdobramentos econômicos. A perda do ferry representa um retrocesso para a mobilidade das pessoas e para o desenvolvimento dos municípios ao redor da BTS. Sem um sistema aquaviário eficiente, a região pode enfrentar maior isolamento e dificuldades para crescer, afetando diretamente empregos, renda e negócios.
O desafio está lançado: é preciso repensar o transporte na Baía de Todos os Santos com foco nas pessoas, valorizando soluções que integrem tecnologia, sustentabilidade e a realidade econômica local. O futuro da região depende disso.

