Críticas à Lista Suja do trabalho escravo
Na última terça-feira (12), durante uma audiência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, especialistas denunciou interferências políticas na chamada “lista suja”, que reúne as empresas implicadas em trabalho escravo. O evento trouxe à tona a preocupação com a credibilidade desse cadastro vital para a proteção dos direitos trabalhistas no Brasil.
Em um cenário alarmante, mais de 65 mil indivíduos foram resgatados de condições análogas à escravidão em duas décadas. O juiz do trabalho Leonardo de Moura Landulfo, que também é diretor de Assuntos Legislativos da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, destacou que, no último ano, 2.700 trabalhadores foram libertados dessas condições desumanas.
A Credibilidade da Lista em Xeque
Eduardo Reiner, representante da Associação Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho, enfatizou que a lista está perdendo sua credibilidade. “Hoje a lista suja está perdendo credibilidade, a partir do momento em que a empresa, se tiver porte econômico e capacidade de articulação para conseguir uma decisão favorável, pode ser retirada da lista suja por critérios não técnicos”, alertou.
A gerente de Educação e Políticas Públicas da ONG Repórter Brasil, Natália Suzuki, uniu-se às críticas, apontando supostas interferências políticas por parte do Ministério do Trabalho na manutenção do cadastro. “Até recentemente, não havia registro de interferência política no conteúdo da lista”, afirmou, ressaltando que a retirada de empresas deve obedecer a critérios técnicos e ao direito de ampla defesa.
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Ela ainda lembrou que, no ano passado, foi sem precedentes que o ministro do Trabalho excluiu três empresas da lista por avaliação política, algo que levantou muitas dúvidas sobre a integridade do processo.
Atualização da Lista e Implicações
Atualmente, a versão mais recente da lista do Ministério do Trabalho inclui 612 nomes, entre pessoas físicas e jurídicas. A montadora chinesa BYD, que inicialmente foi listada, teve seu nome removido após uma decisão judicial. A exoneração do secretário responsável pela área no ministério ocorreu logo após essa remoção, fato que foi interpretado por entidades trabalhistas como uma tentativa de silenciar a denúncia.
O ministério declarou que a exoneração foi uma medida administrativa comum, mas o clima de desconfiança persiste entre os trabalhadores e defensores dos direitos humanos.
Aumento dos Casos de Trabalho Escravo
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Os dados divulgados pela Repórter Brasil são alarmantes: entre 2016 e 2020, 5.444 trabalhadores foram resgatados de situações de trabalho escravo. No entanto, entre 2021 e 2025, esse número saltou para 12.665, um aumento significativo que revela a urgência do problema.
Day Carvalho Coelho, coordenador-geral de Erradicação do Trabalho Escravo do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, destacou a necessidade de uma abordagem integrada entre diferentes esferas do governo para evitar que trabalhadores resgatados voltem a ser explorados. “Precisamos do envolvimento da assistência social estadual e municipal para atender essas pessoas”, defendeu.
Operações e Resultados Recentes
Marcelo Crisanto, vice-presidente da Associação Nacional dos Procuradores e Procuradoras do Trabalho, apresentou dados que mostram que 674 operações de fiscalização foram realizadas entre 2023 e 2025, resultando no resgate de 6.205 trabalhadores. Durante o mesmo período, o Ministério Público do Trabalho estabeleceu 859 termos de ajustamento de conduta com empregadores que exploraram mão de obra.
Além disso, foram pagos R$ 26 milhões em danos morais individuais e R$ 39 milhões em danos morais coletivos, destacando a gravidade das violações ocorridas.
Novas Propostas e Ações Futuras
A coordenadora da clínica de trabalho escravo e tráfico de pessoas da Universidade Federal de Minas Gerais, Lívia Miraglia, defendeu a aprovação do Projeto de Lei 572/22, que visa responsabilizar empresas por qualquer trabalho escravo que ocorra em suas cadeias produtivas. Este debate foi solicitado pelos deputados Tadeu Veneri (PT-PR) e Reimont (PT-RJ).
Reimont também propôs o Projeto de Lei 5760/23, que prevê medidas de proteção e acolhimento para aqueles que foram resgatados de situações análogas à escravidão, com um foco especial no apoio a mulheres vítimas de exploração doméstica. Essa proposta já foi aprovada pela Câmara e aguarda votação no Senado.
Ao final da audiência, o deputado Reimont se comprometeu a enviar as conclusões do debate ao governo federal, com a intenção de cobrar a nomeação de novos auditores fiscais do trabalho e o fim das interferências políticas na lista de infratores. A Comissão de Direitos Humanos continuará discutindo o tema, com previsão de participação de um representante do Ministério do Trabalho na próxima reunião.


