Ataques xenofóbicos geram impacto econômico e social
Aliliane Souza Santos, conhecida como “Lily do Acarajé” em Francisco Beltrão, não se envolveu em campanha política, mas foi incluída em uma lista de boicote que circula nas redes sociais. Essa lista visa boicotar empresas e profissionais acusados de apoiar o partido PT, mesmo sem comprovação. Lily, microempreendedora no município, foi vítima de ataques xenofóbicos que atingiram diretamente seu negócio.
Em um dos áudios que chegaram até ela, um homem despreza o acarajé, prato típico baiano, comparando-o de forma ofensiva e desrespeitosa. “Chega de se iludir. É triste? É, mas, se eu fosse vocês, juntando todo mundo, e se fosse petista no comércio, não comprava nada. Tem uma merda de um contêiner da Bahia lá, vendendo acarajé. Se eu fosse vocês, não iria lá. Não sei se vocês gostam de acarajé. Parece comida de bosta. Acarajé parece bosta amassada.” Em outro áudio, a xenofobia é reforçada, com uma ameaça velada: “Vamos deixar essa mulher do acarajé famosa. Deixa ela encostar lá na praça…”.
O valor cultural do acarajé e o impacto para o negócio
Originário dos povos iorubás da África Ocidental, o acarajé chegou ao Brasil trazido pelos escravizados e é um símbolo da cultura baiana. A Bahia tem a maior população preta do país, com 80,8%, segundo dados do IBGE, o que reforça a importância cultural do prato para o estado e para a identidade local.
Para Lily, as ofensas ao acarajé são um ataque à sua cultura e raízes. “O que mais me doeu foi chamarem o acarajé de pedaço de bosta. O acarajé significa cultura, raízes, mostrar de onde eu vim. Acarajé é algo que todos amam. Tem gente que não gosta, mas eu vendo outras coisas: cuscuz, tapioca, batata recheada. Eu vendo a cultura da Bahia”, afirmou em entrevista ao Jornal de Beltrão.
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Trajetória de Lily em Francisco Beltrão
Nascida em Ilhéus, terra do escritor Jorge Amado, Lily mudou-se para Francisco Beltrão há três anos. Começou a trabalhar como auxiliar de cozinha e faxineira antes de iniciar seu negócio de acarajé. Um pedido de uma amiga para experimentar o quitute abriu caminho para encomendas e, eventualmente, para o estabelecimento de sua própria empresa, permitindo que ela deixasse o emprego anterior.
O ataque xenofóbico ocorreu poucos dias antes do aniversário de Lily. Ela relata o choque ao receber a mensagem com os áudios ofensivos e o nome dela na lista de boicote. “Fiquei desesperada, comecei a chorar, liguei pra minha amiga, fui pra delegacia fazer um BO, porque isso não pode ficar impune.” O vídeo em que aparece emocionada repercutiu nas redes sociais e sensibilizou a comunidade local.
Reação da comunidade e solidariedade econômica
Apesar da tentativa de boicote, a resposta dos moradores de Francisco Beltrão foi de solidariedade. Muitos procuraram Lily para demonstrar apoio e planejam prestigiar seu trabalho nesta quinta-feira, 29, no Calçadão, onde ela retoma o atendimento a partir das 16h.
Lily se prepara para a movimentação com a produção de ingredientes típicos, como feijão fradinho para a massa do acarajé e azeite de dendê para a fritura, além de camarão, castanha de caju, gengibre e quiabo para os recheios. “Alguns ingredientes são caros e difíceis de encontrar em Beltrão. E faço com muito carinho. Muita gente daqui vai pra lá conhecer. Muita gente me diz que eu realizo o sonho deles de comer acarajé”, disse orgulhosa.
Impactos para o empreendedorismo regional e o combate à intolerância
Os ataques contra Lily evidenciam como a intolerância política pode prejudicar o empreendedorismo local, afetando não só a renda individual, mas também o comércio regional. O caso reforça a necessidade de combater o preconceito e valorizar a diversidade cultural, especialmente em cidades que recebem influências de diferentes regiões do país.
Apesar das dificuldades, Lily mantém o entusiasmo pelo trabalho e a vida em Francisco Beltrão. “As pessoas são receptivas. Tô conseguindo crescer e empreender”, finaliza, mostrando resiliência diante da adversidade.

