Empresas em recuperação: números que chamam atenção
Nos últimos dias, duas grandes companhias recorreram à Justiça para reorganizar suas finanças. O Grupo Gennius, que administra as redes Habib’s, Ragazzo e Tendall, protocolou pedido de recuperação judicial. Paralelamente, a petroquímica Braskem solicitou recuperação extrajudicial. Esses episódios elevam a contagem de casos emblemáticos em agosto para cinco: três recuperações judiciais e duas extrajudiciais. No total de 2026, o número já chega a 12 pedidos.
O que muda para o consumidor e o mercado
Recuperação judicial permite que empresas renegociem suas dívidas sob supervisão da Justiça. A extrajudicial ocorre diretamente entre companhia e credores, sem intervenção judicial. Em ambos os casos, o objetivo é evitar a falência e garantir a continuidade das operações. Setores como saúde, indústria e energia enfrentam dificuldades, mas o varejo e consumo concentram a maior parte dos pedidos.
Segundo André Matos, CEO da MA7 Capital, o varejo de bens duráveis sofre fortemente porque enfrenta dois desafios simultâneos: dívidas mais caras e a necessidade de manter estoques elevados, enquanto os consumidores dependem do parcelamento para comprar. Essa combinação pressiona o setor, embora ele não veja risco sistêmico imediato, já que os casos foram anunciados com antecedência.
Por que tantas empresas recorrem à recuperação?
Juros altos, endividamento acumulado desde a pandemia, dificuldade de acesso ao crédito e mudanças no comportamento dos consumidores são causas comuns. Cristina de Mello, professora da PUC-SP, destaca que cada empresa tem causas específicas, como a Marabraz, que enfrenta conflitos societários e familiares que dificultam a renovação de financiamentos.
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O varejo também sofre por trabalhar com margens apertadas, o que torna o capital de giro essencial. Eduardo Terra, da BTR Retail, lembra que muitas empresas cresceram no pós-pandemia com empréstimos, mas o aumento da Selic para 15% elevou o custo dessas dívidas, tornando o cenário mais desafiador.
O Grupo Gennius atribui a crise financeira à mudança no comportamento dos consumidores após a quarentena, com aumento do delivery e menor circulação nas lojas, o que impactou o fechamento de unidades. Paula Sauer, da FIA Business School, acrescenta que custos altos com matéria-prima, energia, salários e aluguel pressionam o Habib’s, que atua num segmento de preços baixos e alta concorrência.
Casos que ilustram o momento de dificuldade
O Grupo Toky, dono da Tok&Stok e Mobly, busca reorganizar cerca de R$ 1 bilhão em dívidas, após fechamento de lojas e pressão no setor de móveis e decoração. O Grupo Hortus, controlador do St Marche, negocia R$ 574,3 milhões em dívidas e acertou venda da rede para o grupo chileno Cencosud.
A Oncoclínicas, uma das maiores redes de tratamento contra o câncer, solicitou recuperação extrajudicial para renegociar R$ 5,1 bilhões. Já a Alliança Saúde propôs um plano para renegociar R$ 1,1 bilhão em dívidas, com parte convertida em participação societária.
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A Marabraz enfrenta dificuldades financeiras e pediu recuperação judicial para reorganizar R$ 140 milhões em dívidas, preservando empregos e mantendo as operações. O Grupo Casas Bahia busca reestruturar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas, após fechar lojas e demitir cerca de 3 mil funcionários, registrando prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre.
A Braskem, com dívidas que somam mais de R$ 187 bilhões, negocia recuperação para enfrentar efeitos do desastre geológico em Maceió e o mercado petroquímico global em crise. O Grupo Gennius, com R$ 265,2 milhões em dívidas, segue com operações das lojas próprias normalmente, enquanto as franquias ficaram fora do processo.
Impactos práticos e expectativas para o futuro
Especialistas avaliam que a onda de recuperações deve continuar pelos próximos anos, mas não representa um risco imediato para consumidores ou a economia como um todo. Júlio Moretti, CEO da NEOT, prevê uma turbulência prolongada de 2 a 3 anos, com possíveis efeitos em empregos e renda se as medidas econômicas não forem firmes.
O cenário reflete desafios reais para empresas com dívidas elevadas, custos altos e mudanças no comportamento do consumidor. A reorganização judicial surge como alternativa para evitar falências, preservar empregos e manter o funcionamento do mercado.

