Rede Clandestina de Adoção em Feira de Santana
Durante quase três décadas, em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, quatro mulheres estiveram à frente de uma rede informal que ficou conhecida como “cegonhas da noite”. Entre as décadas de 1980 e 2000, esse grupo atuava na mediação da entrega de recém-nascidos para adoção, frequentemente deixando os bebês em caixas nas portas de residências, acompanhados por cartas explicativas. Apesar da ilegalidade, a prática ganhou notoriedade local e certa aceitação popular, refletindo o contexto social e a ausência de alternativas oficiais para gestantes em situação de vulnerabilidade.
Funcionamento da Rede e Contexto Social
Estima-se que mais de dois mil bebês tenham sido entregues por essa rede clandestina, embora não existam registros oficiais para confirmar esse número. As “cegonhas” operavam com base na confiança e em uma rede informal de contatos, sem registros formais. Os pedidos de adoção não eram realizados diretamente, mas por intermédio de terceiros, como familiares ou amigos, para manter o sigilo. Com isso, mantinham um cadastro não oficial de famílias interessadas e encaminhavam os bebês após avaliação das condições familiares.
Nem todas as entregas ocorriam durante a noite, contrariando o apelido popular. Muitas crianças eram deixadas em plena luz do dia. Muitas mães, enfrentando dificuldades econômicas e sociais, entregavam voluntariamente seus filhos, alegando não ter condições de criá-los. Contudo, há suspeitas de que algumas crianças foram separadas das famílias sem autorização, o que adiciona uma camada de complexidade e questionamentos éticos ao caso.
Intervenção Judicial e Encerramento das Atividades
A atuação das cegonhas foi interrompida após uma ação judicial que ameaçou prisão aos envolvidos, já que o esquema operava fora dos parâmetros legais. Naquela época, o processo formal de adoção exigia supervisão judicial, algo inexistente na prática dessa rede. Magistrados destacaram que deixar bebês em portas de casas poderia causar constrangimento e sofrimento emocional às famílias receptoras, além de expor os recém-nascidos a riscos.
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Não há registros públicos de ações judiciais específicas contra o grupo, e o Ministério Público da Bahia não confirmou investigações formais. Mesmo assim, a pressão judicial foi suficiente para suspender as atividades clandestinas, encerrando esse período marcado pela informalidade e vulnerabilidade.
Histórias de Adotados e Busca pela Origem
Um exemplo dessa história é Lausanne de Oliveira Vicentin, analista administrativa de 36 anos, nascida em 1989 em Feira de Santana. Ela foi deixada recém-nascida na porta da casa da mãe adotiva, acompanhada por uma carta. Por relatos orais, Lausanne descobriu que sua mãe biológica era empregada doméstica e que a decisão de entregar o bebê ocorreu em um contexto de vulnerabilidade social.
Crescida em uma família de classe média, Lausanne soube da adoção ainda na infância e nunca deixou de buscar suas raízes. Motivada por essa busca, criou uma rede virtual com outras pessoas adotadas por meio dessa prática. Atualmente, o grupo conta com 19 integrantes que compartilham experiências e tentam desvendar suas origens, refletindo o impacto duradouro dessa rede clandestina.
Contexto Legal e Falhas na Fiscalização da Adoção
Embora o processo legal de adoção já estivesse vigente entre as décadas de 1980 e 2000, a falta de fiscalização e informação permitiu o surgimento de práticas informais e clandestinas. Maria Jacy Pereira, assistente social e presidenta de um orfanato em Feira de Santana, destaca que muitas famílias recorreram a acordos informais por desconhecimento ou pela ausência de acompanhamento estatal adequado. Crianças eram entregues sem documentação, gerando insegurança para adotantes e adotados.
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Apesar das irregularidades, a prática das cegonhas era vista por parte da população como uma solução diante da falta de alternativas legais e da vulnerabilidade das gestantes. O abandono voluntário para adoção não configura crime quando segue os trâmites legais e respeita os direitos das mães e das crianças.
Implicações Legais do Abandono Irregular de Bebês
O abandono irregular de bebês em locais públicos é crime previsto no Código Penal Brasileiro, com penas que variam de seis meses a seis anos de prisão, especialmente em casos que envolvam lesão ou morte. A legislação busca garantir que o processo de adoção seja conduzido com sigilo, acolhimento e respeito aos direitos envolvidos, protegendo crianças e famílias.
Hoje, a história das cegonhas da noite representa um capítulo complexo da adoção na Bahia, marcado por desafios legais e emocionais. A mobilização das pessoas adotadas em busca de suas origens revela o impacto duradouro dessa prática e reforça a necessidade de políticas públicas claras e eficazes para proteger os envolvidos, garantindo segurança e transparência no processo de adoção.

